domingo, 5 de junho de 2011

MORAR SOZINHO 2*

* Este texto foi publicado anteriormente em: http://profelipe.weebly.com/ 
Uma vez escrevi um texto sobre os adultos que moram com os pais. Fiz uma comparação entre o que acontece no Brasil e a imagem que é passada pelos filmes norte-americanos. Volto a tratar do tema hoje, pensando em outras perspectivas.
Eu sou divorciado e moro sozinho desde o fim do casamento. Fiz essa opção. Não é fácil para quem precisa de companhias no cotidiano, para quem gosta de conversar sobre o dia quando chega do trabalho. Conheço algumas pessoas que, mesmo assim, moram sozinhas, mas por falta de opção. Outras, mesmo sendo independentes do ponto de vista financeiro, não têm filhos, nunca casaram e continuam morando com os pais. Por quê? Alguns assumem que não gostariam de viver sozinhos. Outros justificam a situação, dizendo que precisam cuidar dos pais.
Morar sozinho não significa somente uma independência financeira. É também uma opção pessoal. Quem te ansiedade, deve temer os infinitos riscos de morar sozinho e não ter alguém próximo para ajudá-lo. O indivíduo pode passar mal e ter que resolver tudo sozinho. Pode ter um pesadelo e acordar assustado no meio da noite. Essas coisas acontecem. No entanto, são resolvidas, na maioria dos casos, sem a existência de grandes dramas - a pessoa que vive sozinha nem teria público para isso.
Existe um outro lado. Você tem mais liberdade e autonomia. Quem vai na sua casa, respeita o seu espaço. Se você não quer conversar com alguém, estaria no lugar ideal. Quando realmente precisa, procura um psicoterapeuta, ou seja, paga para conversar com uma pessoa. Tem gente que faz o mesmo quando precisa de sexo. Neste ponto de vista, a vida dos "singles" é mais simples, prática e objetiva.
Fui casado durante muito tempo. Estou divorciado faz mais de quatro anos. Nos dois casos, existem vantagens e desvantagens. É uma questão de escolha e isso depende do momento da sua vida e daquilo que você acredita e considera importante.

SOLIDÃO

Diferente do que muitos pensam, a solidão não é um mal. Muitas pessoas escolhem o isolamento, como a brasileira que viaja sozinha e atravessou o oceano atlântico no seu barco - mostrada no  programa "Globo Repórter" (03/06/2011).
Alguns intelectuais e artistas escolhem o silêncio e o isolamento. Existe uma música de Simon & Garfunkel que diz "existem os livros" para proteger o indivíduo. Essa é a teoria de Gore Vidal que afirma que "nunca sentiu solidão pois sempre teve a companhia dele mesmo e de seus livros." 
Não existe uma regra geral quanto ao isolamento. Torna-se um problema quando a solidão não é resultado de uma escolha da pessoa. Nesse caso, o que acontece é uma exclusão.
O indivíduo, no geral, teme não ser aceito pelos outros. Assim, se sujeita a várias coisas para manter um contato social, seja casamento, namoro ou amizade. No entanto, esse contato não garante a felicidade. Pode ocorrer o contrário, como um cotidiano de humilhações e agressões. No meio de tudo isso e de tantas pessoas, ele ainda pode se sentir sozinho.
A rejeição causa dor e mágoa. Os sentimentos negativos podem afetar o corpo da pessoa. Isso é conhecido desde o século XIX, quando  Jean Martin Charcot percebeu a dificuldade de tratar sintomas associados às mulheres histéricas. Na época, "os neurologistas buscavam [explicá-los] com base em alguma causa orgânica, sem sucesso. Faziam exames neurológicos e não encontravam nada,nenhum indício de deficiência mental." (Luiz T. O. Lima, Freud - Folha Explica,  p. 15) 
Aliás, foi a partir do trabalho com Charcot que Freud chegou no método da psicanálise. Desabafar é bom. Falar ajuda. Portanto, muitos recorrem ao processo psicoterápico.
Existe um sentimento que incomoda tanto os solitários como aqueles que vivem rodeados de amigos e familiares. Trata-se do medo. Isso gera doenças. Mas... medo do quê? Medo de se conhecer? Medo do passado? Medo do futuro? Medo da morte? Medo da rejeição? Enfim, medo da solidão?
Identificar o medo não resolve o problema. É necessário conhecer a causa e isso só é possível recorrendo ao próprio passado do indivíduo. Não lembrar do que acontece e não lembrar dos sonhos podem ser um sinal de fuga, de medo. A alienação complica o processo, causando a falta de apetite e a insônia, e o resultado pode tornar-se algo mais grave e levar, por exemplo, a um ataque do coração.
Viver sozinho é complicado. Viver com o outro também não é fácil. Fingir que não existe problema é uma forma de agravar a situação. O melhor é assumir que não existe perfeição e nem respostas absolutas. Assumir os seus desejos e não depender tanto dos outros para ser feliz podem ser alternativas. Cada caso é diferente. Construir o seu caminho, do seu jeito, com erros e acertos, pode ser a melhor saída.  

DROGAS, ÁLCOOL & SEXO

Antes de qualquer coisa, seria necessário definir sobre qual droga estarei falando (escrevendo). Atualmente, a droga do sexo é o viagra. Não tomei a pílula azul ainda, mas não tenho preconceitos.
Existem drogas permitidas e drogas ilegais. De todas, a minha preferida é o rivotril. Eu sou fã daquelas gotinhas. Nunca tive problemas com as chamadas drogas ilegais, exceto ser preso uma vez, claro (aos 18 anos). O que quero dizer é que nunca fui viciado. Nunca precisei dessas drogas para viver ou para fazer amor, apesar de admitir que, ocasionalmente, assim como o álcool, pode ser algo interessante na hora do sexo. 
Nunca fui viciado em cigarros. Posso fumar num bar, enquanto bebo, mas não é uma necessidade. Eu gosto mesmo é de Cohibas. Os charutos cubanos, apesar do preço, tornam a vida melhor, assim como um bom e velho whisky escocês.
Aqui, no álcool, reconheço que tenho problemas. Não sou alcoólatra e não bebo todo dia. Não é isso. O álcool (em excesso) desperta, em mim, um instinto agressivo. Quando começo, tenho dificuldades de parar de beber naquela noite. Os excessos geram problemas (com as bebidas alcoólicas não seria diferente). 
O excesso de sexo também não é bom. Existem clínicas, nos Estados Unidos, para cuidar dos viciados em sexo (como Steven Tyler e Michael Douglas). Eu sou meio "womanizer", aquele tipo que não pode ver uma mulher, que fica interessado. Já fui mais. 
Fiquei com garotas de todos os tipos. Só uma vez me arrependi. Ela insistiu muito e o meu lado  "womanizer" falou mais alto. A idade que eu tinha, na época, deve ter contribuído. O fato é que a experiência não foi boa. Hoje acredito que dramatizei demais quando aconteceu. O tempo ameniza quase tudo. 
A mudança dos hormônios, com a idade, é um fator positivo. Eu, como aconteceria com qualquer homem, fiquei mais seletivo e menos "womanizer". A maturidade ajuda na relação com as mulheres. As drogas, legais ou não, devem ser evitadas, quando for possível, para se conseguir o que de mais "natural" possa existir numa relação. Acredito que o álcool não seja um problema para a maioria - como é para mim. No mais, em qualquer idade, é ser feliz e viver intensamente os bons momentos.

MÁ INFLUÊNCIA

Por ser verdadeira e recusar a hipocrisia, Leila Diniz tornou-se, na década de 1960, um "grande perigo para os filhos de boa família." (Cláudia Cavalcanti, p. 45)
De certa forma, passei (e ainda passo) por isso. Muitos pais de amigos, na adolescência, me consideravam, uma "má influência". Depois, enfrentei o preconceito dos pais das namoradas, mas, aqui, era bom, pois quanto mais eram contra, mas a garota ficava interessada. 
Década depois, divorciado, ainda me consideram uma "má influência". Entretanto, existe uma diferença: sou da idade deles, saio com gente maior de 18 anos, moro sozinho e não preciso dar satisfações a eles ou a qualquer pessoa. O fato é que meus amigos na adolescência - que eram rebeldes e bebiam muito - tornaram-se os pais conservadores e moralistas de hoje.
Fazer o quê? Lembra o título daquela música de Simon & Garfunkel: "still crazy after all these years". Quem explica? Who cares?   

AS NOITES, OS ADULTOS E OS ADOLESCENTES


Na noite, converso e me relaciono com pessoas maiores de 18 anos. É a lei e prefiro assim.
No entanto, existe um problema que afeta quem gosta dos bares: adolescentes com documentos falsos. Eles podem criar problemas para os proprietários das casas noturnas e até para os seus clientes, que imaginam que estão se envolvendo com pessoas adultas.
Existe uma clara omissão dos pais, que acreditam "ser algo natural" ver filhos e filhas chegarem em casa após as três ou quatro horas da manhã. Onde estariam? Como entrariam nas "raves", se não têm 18 anos? Coisas óbvias que os pais não querem ver. Utilizam a mesma lógica quando um filho é homossexual ou se está envolvido com drogas: todos sabem "exceto os pais", que não querem ver o problema. 
Como sempre digo: não admitir que existe algo errado só complica a situação. O preço é alto. Funciona como uma bomba relógio. Quando ocorre a "explosão", é chegada a hora de procurar oculpado e ele seria o próprio filho, que teria "decepcionado" os pais que "sempre lhe deram atenção e carinho". Irônico. 
Num segundo momento, são destacados os efeitos (nunca a causa) do problema, como as más companhias ou a falta de fiscalização das casas noturnas. Se o problema for mais grave, a culpa seria dadroga ou do álcool - sem questionar, claro, por que os filhos resolveram usar esses produtos.
O ideal seria que fosse considerado um recado num cartaz de um bar da cidade: 
"Vc não tem 18 anos e procura diversão em Udi? Vai para o shopping !" (Ooze)
Quanto aos problemas entre pais e filhos, conversas sem moralismo e ajuda de psicoterapeutas poderiam ajudar. Fica a dica.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

INSTINTO SEXUAL: PÍLULA ANTICONCEPCIONAL E VIAGRA


Quem, num momento de revolta, não disse, para os pais, que não pediu para nascer? Deveria saber também, que eles não programaram a gravidez. John Lennon é claro neste aspecto:
"Noventa por cento das pessoas deste planeta, especialmente no Ocidente, nasceram de uma garrafa de uísque numa noite de sábado - são acidentes. Não conheço ninguém que seja um filho planejado. Todos nós somos embalos de sábado a noite." (Playboy - Entrevistas, p. 308)
Trata-se de uma opinião radical. Assim era Lennon. A sua fala corresponde a um contraponto ao "não pedi para nascer". Quando um filho diz isso, deveria ouvir dos pais: "e quem disse que pedimos?"Especialmente no caso de uma mãe, jamais ocorreria uma reação desta maneira. Os pais tentam ser compreensivos com os filhos e com os netos. Por isso, mentem sobre quase tudo, exceto o amor que sente por suas crias.
Renato Russo já dizia: "os seus pais são crianças também". Queria dizer, basicamente, que todos estariam no mesmo barco: a vida. Em outras palavras, sexo é bom pois representa a possibilidade de continuidade da vida. Animais entram no cio para preservar a espécie. No caso do homem, como ele tenta controlar tudo, resolveu também controlar o impulso sexual associado à procriação. Inventou apílula anticoncepcional. Posteriormente, pensando no sexo como prazer, inventou o viagra.
Pílula anticoncepcional e viagra tratam de questões relacionadas ao corpo. Mas o sexo, além do instinto da natureza, envolve, no indivíduo, o lado emocional. Como negar o óbvio? Mesmo quando um ato parece não ser importante, ele fica gravado na mente da pessoa e, de alguma maneira, pode influenciar as suas futuras ações.
É natural resistir a um pensamento que corresponde a um ato desagradável. Resistir, negar, só piora e reforça a neurose, criando problemas para o indivíduo, como a insônia (ponto de vista freudiano). O que fazer, então? Primeiro, assumir para si (e não para os outros) que de alguma maneira a pessoa foi responsável por aquele ato. Segundo, fazer uma auto-crítica, afinal, o que a levou a tal situação? Por que o ato gerou incômodo depois? 
Auto-crítica pode não ajudar a consertar os erros do passado, mas, pelos menos, evita repeti-los no futuro.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

SOBRE HOMOFOBIA

A decisão do Supremo Tribunal Federal a favor da igualdade de direitos tanto para casais heterossexuais como homossexuais foi um avanço num país que até 1985 vivia sob censura e ditadura.


A decisão acontece num momento de ataques de homofobia no Brasil. A questão que fica é: por que a sexualidade (do outro) incomoda tanto? Quando era casada com Richard Gere, Cindy Crawford teve que lidar como este tipo de problema. Ela afirmou:


"I totally respect Richard's choise not to say, 'I'm not gay! I'm not gay!' I've always thought that was really cool about Richard. His attitude is that there is nothing wrong with being gay, so even by saying: "Well, I'm not, but there's nothing wrong with it." (Playboy, September 1995, p. 55) 


Ainda hoje, em alguns países, o homossexualismo é considerado crime. O preconceito é evidente no mundo atual. Mas... sempre foi assim?


Parece que não. Na Grécia Antiga, a relação entre os homens era considerada comum e até "superior" aquela que existiria entre um homem e uma mulher. Michel Foucault (O Cuidado de Si, p. 198-199), analisando as concepções do período, afirmou:


"(...) o amor pelos rapazes é ao mesmo tempo diferente da inclinação pelas mulheres e superior por duas razões: uma, diz respeito à sua respectiva posição em relação à natureza; e a outra, que concerne ao papel desempenhado, em cada um deles, pelo prazer. 
Os partidários do amor pelos rapazes fazem uma breve alusão ao argumento freqüente que opõe tudo que há de artificial nas mulheres (enfeites e perfumes em umas, navalhas, filtros e pinturas nas mais desavergonhadas), ao natural dos rapazes que são encontrados na palestra. Mas o essencial contra o amor pelas mulheres é que nada mais é do que uma inclinação danatureza."


Na sociedade atual é diferente. A "inclinação da natureza" é ressaltada para defender a relação entre o homem e a mulher como aquela que deve ser adotada. Essa tese é defendida por religiosos elíderes políticos. 


Um caso extremo é a postura do político fascista russo Vladimir Zhirinovsky. Diante da afirmação da jornalista Jennifer Gauld de que na Rússia, na época do comunismo, o homossexualismo era considerado crime, Zhirinovsky disse que: "o homossexualismo seria como um 'sputnik' (...) na história da humanidade." Em seguida, resumiu a sua opinião:


"Se as pessoas casam, ou têm relações sexuais assim que desejam, ou não estão isoladas no exército ou em prisões, então, em 100 ou 200 anos, o homossexualismo desapareceria." (Playboy, March 1995, p. 61) 


Assim, para Zhirinovsky, o homossexualismo seria resultado de uma conjuntura em que as pessoas não poderiam realizar "naturalmente" os seus desejos sexuais. Alguns religiosos acreditam que o homossexualismo poderia ser "curado" desde que existisse vontade por parte do indivíduo. De fato, trata-se de algo que incomoda.


Jacques Lacan (Livro 20 - Mais, Ainda, p. 37), uma vez, comentou tal incômodo:


"Joguei ano passado com o lapso ortográfico que fiz numa carta endereçada a uma mulher -' jamais saberás o quanto eu tenho te amada '- 'a' em vez de 'o'. Quiseram me apontar depois queaquilo queria talvez dizer que eu era homossexual. Mas o que articulei precisamente no ano passado foi que, 'quando a gente ama, não se trata de sexo'."


Numa série de televisão, os produtores de "Two and Half Men" falaram que o episódio sobre homossexualismo seria um dos preferidos deles, na medida em que lidava com uma questão que incomodaria todos os norte-americanos: ser ou não ser gay. 


No episódio, o personagem Charlie Harper, intrigado com a amizade do seu irmão com um divorciado gay, procurou a sua terapeuta e perguntou: "eu poderia ser gay sem saber?" O incômodo era claro. No final do episódio, o seu irmão tentou beijar o divorciado, que disse que ele não era gay. Diante das dúvidas de Alan Harper, o divorciado perguntou: "você sente atração por homem?"Refletindo sobre a sua condição, o irmão de Charlie admitiu a heterossexualidade e ainda ouviu: "it's OK to be straight" (algo como "é correto ser hetero").


Uma frase irônica resumia o debate do episódio. Era defendida, indiretamente, a idéia de que deveria existir liberdade. Portanto, a sexualidade estaria associada ao desejo e não a uma norma social ou a uma época histórica. O fato do personagem que gerou desequilíbrio na família Harper ser um divorciado gay demonstra ainda que essa sexualidade não seria algo pronto e definido. Seria algo em construção, assim como o desenvolvimento do próprio indivíduo. 


Isso não significa que alguém deixará necessariamente de ser heterossexual ou não. A palavra chave é o desejo. Afinal, você sente atração por quem? É uma coisa íntima e pessoal, a partir disso, o indivíduo tentará estabelecer uma relação amorosa com o outro.


Em suma, o fundamental não são os rótulos. O que importa é definir a ação com base em três conceitos: amor, desejo e atração. O resultado pode ser aquilo que chamam de felicidade.