quinta-feira, 14 de novembro de 2013

LEVEZA E DIVERSÃO

Os instintos básicos (alimentação, sono, vida sexual...) devem estar (constantemente) satisfeitos. Se isso não ocorre, acontece uma crise pessoal (esse não é o único tipo de crise, por exemplo, o nazismo foi uma crise coletiva, social).
Existem três formas comuns que um indivíduo utiliza para resolver uma crise pessoal:
Primeiro, troca a realidade pela fantasia. Ou seja, não admite que existe algo errado.
Segundo, preocupa-se com a vida do outro, com os problemas do outro. Trata-se de uma forma de desviar o foco (quanto a si mesmo).
Terceiro, admite a crise mas a culpa seria do outro. Não existe autocrítica.
Fugir da crise é difícil. Existe um incômodo no corpo, na mente. Aparecem sinais. Insônia. Manchas no corpo. Falta de apetite.
A origem da crise está no passado. Aconteceu algum trauma que a pessoa tem medo de passar por aquela situação novamente. Ela tenta apagar o trauma da memória, mas ele permanece no inconsciente.
O trauma “faz aniversário” e isso gera aquela tristeza sem explicação. A morte de um familiar, por exemplo, que aconteceu em 15 de fevereiro de 2001. Apesar do indivíduo ter vivido o luto e, teoricamente, ter superado a dor, quando chega fevereiro, aparece um certo mal estar.
O “aniversário” pode tornar-se, inconscientemente, um padrão. Ou seja, a pessoa acredita que em cada fevereiro acontecerá algo ruim.
Quanto mais traumas, mais “aniversários” e a vida torna-se mais complicada. Só piora a situação o fato de não admitir as frustrações, decepções e traições.
Não assumir o que o indivíduo é, de fato, o seu corpo, os seus desejos, a sua idade... Tudo isso cria um nó (ou vários) na vida da pessoa. Ela, com o tempo, se vê envolvida numa rede múltipla e caótica de problemas, crises, frustrações, decepções, traições (tanto explícitas no corpo e na mente, como ocultas).
Para melhorar, o indivíduo precisa, sinceramente, buscar a (s) causa (s). Fazer o percurso ao contrário: parte do incômodo do presente e caminha em busca de sua origem no passado.
Compreender o processo e saber o que acontece, de fato, no cotidiano, pode tornar a vida mais leve e divertida na medida em que o indivíduo descobre que não precisa ter medo do seu verdadeiro “eu” e nem do seu passado.

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

ASSÉDIO SEXUAL


Dizem que as pessoas, especialmente as mulheres, são esnobes em Uberlândia. É verdade no caso da maioria. No que diz respeito ao sexo feminino, no entanto, seria interessante fazer algumas considerações.

Uma boa parte, entre as mulheres, não se enquadra no padrão de beleza atual. Assim, antes de sair, existe toda uma produção para que ela fique bela, isso sem falar nas cirurgias plásticas. Diante de tanto investimento, seria pouco provável que uma mulher se entregaria ao ouvir a primeira cantada vulgar de um homem bêbado com cheiro de cigarro e cerveja.

Por outro lado, toda essa produção pode provocar desconfianças diante dos outros:

"Engano possível sobre o corpo que os enfeites escondem e que se arrisca a decepcionar quando é descoberto; ele é rapidamente suspeito de imperfeições habilmente mascaradas; teme-se algum defeito repelente; o segredo e as particularidades do corpo feminino são carregados de poderes ambíguos." (Michel Foucault, O Cuidado de Si, p. 220)

Outro fato inegável é que as mulheres sofrem assédio sexual. Existe "(...) um 'olhar masculino', a forma como homens por sua obsessão voyeurista procuram manter as mulheres na posição de objetos sexuais que são passivos ao seu olhar." (Camille Paglia, Playboy, October 1991, p. 133)

Não é simples lidar com tal realidade. Por exemplo, “as anoréxicas defendem-se do olhar masculino refreando o desenvolvimento do próprio corpo.” (Kalu Singu, Sublimação, p. 61)

Outro problema é a alienação: uma coisa é admitir que "as mulheres, em sua maioria, precisam ser seduzidas e consideradas atraentes,"* outra é saber se elas têm consciência do que provocam nos outros. Camille Paglia cita exemplos:

"Vejo mulheres fazendo 'cooper' na rua com os seus seios para cima e para baixo e eu acho que elas estão loucas. Elas realmente não vêem que são um alvo de provocação ao correr.
(...) uma garota toma 12 tequilas numa festa de faculdade e um rapaz a chama para subir para o seu quarto e, então, ela fica surpresa quando ele a ataca?" *(Camille Paglia, Playboy, October, p. 170)

Isso não justificaria o estupro, afinal, toda mulher tem o direito de se vestir de uma maneira sensual sem ser atacada. O problema é se ela tem consciência do que provoca, de quais sinais ela estaria enviando aos outros? Se ela não for alienada, saberá certamente lidar com os olhares e as abordagens masculinas, sejam elas discretas ou não.

domingo, 3 de novembro de 2013

EXCESSOS

A noite é definida antes da pessoa sair de casa. O seu estado de espírito será determinante para dizer como será o dia seguinte.
Os excessos – bebidas, drogas, paqueras, brigas, entre outros – serão apenas instrumentos para realizar algo que já estava traçado pela pessoa. Tristeza, frustração e rejeição fazem parte deste processo. Alegria e satisfação também, dependendo do estado de espírito de cada um.
Existem pessoas que bebem ou cometem outros excessos para esquecer os problemas do cotidiano ou ainda algo mais grave, como um trauma na infância. Não resolve. Piora. Elas estarão bem piores no final da noite.
Alguns falam em ressaca moral, mas pode ser mais complicado. No caso de algum trauma, além do mal estar, elas terão que enfrentar, ao dormir, tudo aquilo que queriam esquecer... em pesadelos terríveis que parecem cada vez mais reais.
 A tentativa de fugir do inconsciente não funcionou. Ele é implacável e a dor produzida, invisível e solitária, é tão intensa que leva a alguns na escolha de algo até então impensável.
Tudo isso pode tornar-se um ciclo de autodestruição. As fotos produzidas para as redes sociais, com gente bonita e belos sorrisos, parecem não enganar mais, o mesmo acontece com a constante troca de elogios tanto pessoalmente como pela Internet.
O tempo passa e a situação piora. Ficar em casa, vendo televisão e comendo, pode ser pior. Engorda. Piora a já debilitada autoestima. Mais gorda, mais a pessoa quer ficar em casa, quer esconder do outro e de si mesma. Entretanto, o problema, como antes, não está na aparência física. Ele vem de dentro... A emoção não pode ser controlada e os erros – escondidos no inconsciente – insistem em voltar a incomodar, sobretudo em momentos de fragilidade.
Não existe solução. Alguns diriam que o tempo seria a melhor resposta. Talvez. Mas nem ele resolverá o mal estar existencial da condição humana.

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

OTIMISMO

Algumas pessoas têm medo de pensar. Outras acreditam que ler só ajuda a inventar problemas. Filosofia, Política, História, Sociologia, nesta perspectiva, não seriam úteis.
Trata-se de uma postura (preconceituosa e) equivocada. Toda forma de conhecimento serve para ajudar o ser humano no seu cotidiano. A teoria só faz sentido em função da prática:
“A filosofia existe para que as pessoas possam viver melhor.  Sofrer menos. Lidar mais serenamente com as adversidades.” (Essa e as outras citações foram retiradas da Época, 22-01-2007, p. 67-73)
Nesta revista, são utilizadas ideias e citações de vários filósofos da Grécia Antiga no sentido de “serenar a tempestade da alma” (Montaigne) Em outras palavras, qualquer um sente dificuldade em controlar a própria mente, sobretudo naquele momento, que após um longo dia de atividades exercidas, o indivíduo pretende dormir e ter um sono tranquilo. A insônia aparece tanto com questões do dia como também com experiências passadas e preocupações quanto ao futuro.
Os filósofos apresentam algumas sugestões. Demócrito: “Ocupe-se de pouco para ser feliz.” Privilegie o equilíbrio, a calma, a serenidade, a linguagem simples, o silêncio, o riso e a paciência. “O futuro é fonte de desassossego”, portanto, seria necessário viver o “aqui e agora”. Para Sêneca, seria “preciso livrar-se da agitação desregrada, à qual se entrega a maioria dos homens.”
 Algumas coisas acontecem independentemente da vontade do indivíduo.  Epiteto, assim, afirmava:
“Não se deve pedir que os acontecimentos ocorram como você quer, mas deve-se querê-los como ocorrem: assim sua vida será feliz.”
Sentimentos negativos devem ser evitados. “O homem sábio nunca tem maldade e sempre esquece as injustiças de que é vítima.” (Aristóteles) A maioria vê como problemáticas negativas a morte e o envelhecimento. Fugir de pensar (nestas temáticas) seria um erro. Montaigne: “O remédio do homem vulgar consiste em não pensar na morte. (...) Isso é uma demonstração de cegueira e estupidez.”
No que diz respeito ao envelhecimento, a leitura e a reflexão sobre o passado podem ser aliadas. De acordo com Cícero, “a memória declina se não a cultivamos ou se carecemos de vivacidade de espírito.”
Em resumo, as sugestões do que seria razoável na velhice, na prática, servem para qualquer idade: cultivar a memória, ser “intelectualmente ativo” e não abandonar as atividades físicas. Se não trocar o passado ou o futuro pelo presente, o dia-a -dia, certamente a vida pode ser mais tranquila e prazerosa.

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

CRISE E CAUSA

Quando uma pessoa entra em crise, muitas vezes, ela procura um culpado. Nem sempre funciona. A grande pergunta neste momento deve ser: qual foi a causa? Alguns não gostam de pensar o próprio passado... mas existe outra alternativa? A origem do mal-estar do presente está no passado, algumas vezes, até na infância.

Experiências desagradáveis produzem recalques, que geram resistências internas em admiti-los. Eles são, assim, retirados da consciência, do lado racional, e escondidos no inconsciente. Certamente não seria possível acreditar que eles simplesmente desapareceriam. Viveu algo... Ficou gravado em sua mente.

A alienação começa quando a pessoa tenta fugir do passado desagradável. Não dá. Aqueles traumas escondidos voltam a perturbar no presente: primeiro, com processos como insônia, falta de apetite, desinteresse sexual e marcas no corpo; depois, pode ficar sério pois os riscos são: ataque cardíaco, AVC, loucura ou suicídio.

Para evitar tais situações, é necessário admitir a crise. É importante parar de se enganar e identificar a origem dela. Problematizar pode não trazer uma resposta imediata, mas saber a causa do problema representa um avanço na história do indivíduo. Ele começa a ficar mais a vontade com o seu passado e isso melhora o presente, o seu cotidiano.

Os pesadelos não param. Quem se importa? O fundamental é dormir e, claro, saber o significado dos sonhos. A pessoa, afinal, passa um terço da vida dormindo e não seria razoável desprezar as mensagens que são emitidas do sono, mesmo que, aparentemente, elas pareçam bizarras e sem sentido.

domingo, 15 de setembro de 2013

O HOMEM E O SELVAGEM

Priscilla Roth faz uma afirmação polêmica no seu livro "O Superego"  (p. 20-21):

"Muitas são as recompensas da vida civilizada; acima de tudo, a vida é mais segura numa sociedade civilizada."

Trata-se, de fato, de um erro na medida em que tal segurança não existe. O civilizado reprime os seus desejos - instintos naturais para atender as expectativas dos outros (família, amigos, igreja, escola, mercado, entre outros). Para tanto, ele ocupa o seu cotidiano com bastante trabalho para acumular bens materiais e, devido a ansiedade e o estresse desse processo, pode morrer com um ataque cardíaco.
Não existe, na condição humana, algo como segurança (ou estabilidade). O que existe é morte e os bens materiais em nada ajudam nesse momento.
Quanto ao estilo de vida do civilizado, Freud fez uma observação interessante :

"O selvagem, assim como o animal, é cruel, mas ele não tem a maldade do homem civilizado. A maldade é a vingança do homem contra a sociedade pelas restrições impostas a ele. É essa vingança que dá vida ao reformista profissional e as pessoas intrometidas. O selvagem pode cortar a sua cabeça, comê-lo, torturá-lo, mas ele vai poupá-lo das pequenas provocações que (...) tornam a vida em uma comunidade civilizada quase intolerável." (A arte da entrevista, p. 95)

Mais uma vez, Freud estava certo.

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Jung & Heidegger

É interessante a relação entre Carl Jung e Martin Heidegger com o nazismo. Jung teve uma paciente e amante judia. Heidegger teve um caso com uma aluna judia.
A intenção, aqui, não é tratar das relações entre os arianos e as judias. O que chama a atenção é, por um lado, a quebra de uma hipócrita norma social de monogamia no casamento - ambas são amantes - e, de outro, o rompimento de um "protocolo profissional" - médico/ psicanalista e paciente (Jung) e professor/aluna (Heidegger).
O controle do outro, provavelmente, estaria por trás da criação de tais convenções sociais. Elas são produzidas e mudam de acordo com as épocas históricas e com as sociedades.
Num modo de produção como o capitalismo, no qual o elogio ao trabalho tornou-se algo fundamental, seria razoável esperar condenações morais (e até legais) quanto ao rompimento destas normas.
O objetivo, neste sistema, seria produzir ao máximo - o "aceitável seriam oito horas por dia e seis dias por semana em um ambiente com outras pessoas (como uma fábrica ou uma loja).
Ainda assim, em tal ambiente, com homens e mulheres passando tanto tempo juntos,  espera-se que não exista qualquer tipo de envolvimento amoroso.
Em outras palavras, não bastaria a tortura do trabalho. Tentar controlar a libido e proibir as relações sexuais seriam formas de controlar o outro, roubando o seu tempo, o seu espaço, a sua mente (imaginação) e o seu prazer sexual (mesmo fora do trabalho)